quarta-feira, abril 28, 2010

Mais uma vez o fim

Fotos: Gerardo Martinez
Homens divorciados de suas raízes religiosas, metafísicas e transcedentais encontram-se perdidos, realizando ações sem sentido, absurdas e inúteis. O sentimento de absurdo que nasce de uma realidade onde a busca pela sua compreensão dá-se somente através do raciocínio lógico, privando o homem repentinamente de luz, de ilusões e da pureza dos ideais.
Assim transcorria pelo tempo o espetáculo Fim de Partida, direção de Luiza de Rossi sob o texto de Samuel Beckett, no sábado do dia 24. Os questionamentos sobre a condição humana, ou melhor dizendo, a condição desumana, ecoavam na cabeça do espectador, instaurando a atmosfera de pós-guerra criada não só pelo texto, mas também pela montagem. Aos meios passos de Clov, aos gritos estridentes de Hamm e aos lamentos moribundos de Nagg e Nell, o público sentia o gosto amargo daquele dia cinza e daquele punhado de poeira escura. O exílio daqueles personagens era irremediável, lhes restando a lembrança de um passado burguês e os resquícios da tentativa falha de compreender suas existências insignificantes através da racionalidade.

"O fim está no começo, e no entanto, continua-se". Desta maneira, ao tilintar da fala de Hamm em um de seus monólogos, vamos seguindo, tirando o pé ainda quente do palco para pisar no próximo, com a certeza de que faremos mais uma troca com nosso público. Em uma semana, voltaremos a viver estas relações, este dia-a-dia e também estes personagens, pois sim, quanto mais assistimos a este jogo, mais percebemos estas pessoas em nós. O fim continua-se na próxima quarta-feira, e em muitos dias mais.

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