Teatro Por Que Não?: Construindo...

quarta-feira, outubro 06, 2010

Construindo...

Um breve olhar sobre o Palco

(Deivid Machado Gomes e Felipe Martinez)

"Neste nosso primeiro ano de Palco Fora do Eixo foram muitas apresentações, muitos encontros e desencontros, erros, acertos, descobertas. Nós os artistas independentes nunca imaginamos a tamanha força contida na união, seguida de organização e perseverança. O trabalho mais fácil sempre foi culpar a sociedade, reclamar da falta de espaço, da falta de público, ou até, da falta de formação deste para fruir de forma ideal a nossa arte. Porém, percebemos na solicita hora, que o vitimismo haveria de ter um termo. Revertemos a energia aplicada em desculpas, para ações coordenadas e efetivas, sacrificamos os momentos de lamentações inócuas pelo trabalho árduo, inclusive nos feriados e fins de semana. Por fim, descobrimos que sim, é possível fazer arte nesse país, que sim, existem perspectivas razoáveis para os ditos artistas, desde que, eles superem o medo e a inércia. É claro que todo o trabalho realizado até agora ainda não ultrapassa sequer a fase de embrião. E que infelizmente, e apenas por enquanto, não é possível sobreviver unicamente com as atividades do Palco Fora do Eixo. No entanto o primeiro objetivo foi alcançado, o de formar uma estrutura cooperativa entre artistas independentes, e criar novos espaços no cenário artístico cultural.

Foto: Cláudia Schulz

Iniciamos de uma maneira mais concreta as nossas atividades no mês de março desse ano. O palco foi a praça Saldanha Marinho, em frente ao histórico Theatro Treze de Maio. Lá apresentamos o espetáculo de rua ‘A Ida ao Teatro’, do grupo Teatro Universitário Independente. O cenário não podia ser mais interessante. E embora sem ser convidados, nem a chuva e nem os fortes ventos daquela noite puderam esfriar os ânimos dos recrutas nessa primeira batalha em prol da arte teatral presente na sociedade.

Foto: Cláudia Schulz

Daí por diante as coisas só esquentaram, como se fosse na Bahia, como se fosse Jorge Amado. E era, era ela, ‘Gabriela Cravo e Canela’. Um nu medido, mas de desmedida insinuação, que inaugurava teatro num ateliê de artistas plásticos. Iniciava aqui a nossa prazerosa parceria com o Ateliê da GARE da Estação. O grupo Teatro Por Que Não? rejubilou-se ao ver aquele ambiente lotado de pessoas para assistirem seu primeiro espetáculo apresentado no circuito Palco Fora do Eixo.

Foto: Cláudia Schulz

Logo depois o fim era só o começo, ou quase isso. ‘Fim de Partida’, espetáculo baseado na obra homônima de Samuel Beckett, mais um do TPQN?, deu continuidade à busca de espaços alternativos, sendo apresentado no bar Macondo Lugar. O niilismo e a crítica social presentes nessa obra fizeram contraponto ao ambiente descontraído do bar, lembrando e conduzindo os espectadores a refletirem sobre a vacuidade dos propósitos de suas existências. Era maio, e algumas pessoas já começavam a perceber que a cena teatral em Santa Maria se fortificava.

Foto: Cláudia Schulz

‘Aquele que Diz’ foi o espetáculo do mês de julho. Júlio César foi um grande imperador, traduzindo, um déspota, um tirano que matou milhares pela edificação de um império. Ainda hoje persiste o imperialismo, persistem os déspotas, e se não temos mais os jovens espartanos portando lanças, temos crianças na África portando armas de fogo. ‘Aquele que Diz’, ataca aos berros os costumes caducos que endossam a guerra como uma forma de lidar com os seus semelhantes no mundo. O TPQN?, de volta ao Ateliê da GARE, explorou nessa obra a teoria da peça didática de Bertold Brecht, a projeção de vídeos e a música eletroacústica.

Foto: Cláudia Schulz

Agosto tinha tudo para ser o mês do desgosto. Ainda mais quando o TPQN? retornava ao Ateliê da GARE justamente em uma sexta-feira 13. Primeiro um cão mijou no cenário, depois as luzes começaram a falhar, e por último estava frio. Tão frio que foi necessário encher o balde, no qual o ator colocou sua cabeça, com água escaldante, que por uma peripécia do destino não esfriou a tempo, e praticamente pasteurizou os miolos do nosso querido André Galarça. Mas apesar do susto ele manteve-se firme, e continuou sendo ‘O Afogado Mais Bonito do Mundo’ até o final.

Foto: Lucas Baisch

E por último, até então, tivemos a luz tênue de um abajur lilás, a iluminar o sub-mundo da prostituição brasileira. ‘O Abajur Lilás’, livre adaptação do texto de mesmo nome do dramaturgo Plínio Marcos, foi apresentado no mês de setembro no bar Macondo Lugar. O espetáculo não só aproveitou, como também, assumiu o ambiente que o envolvia, quase que mimetizando os alhures de lugar nenhum que são os prostíbulos mofados aonde servem essa “bebida de merda”. E escancarou as relações entre opressores e oprimidos. O TPQN? finalizou suas apresentações no circuito Palco Fora do Eixo neste ano, dizendo ao público: As coisas que estão ruins, só permanecem ruins, por que vocês preferem ficar aí sentados.

No entanto, as atividades do TPQN? não se enceraram ali. Ele permanece ativo como mais um dos grupos integrantes do Macondo Coletivo, que trabalha de forma árdua e incessante, para a proliferação da arte teatral na cena cultural brasileira. À exemplo da Cia. Teatro de Bolso e o Teatro Camaleão, que apresentarão suas peças ainda este ano na continuidade do Palco Fora do Eixo. E que este seja só o inicio de um longo trabalho, que não tem pretensões de acabar tão cedo."

Teatro Por Que Não?
Setembro de 2010

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Pois então, este é um texto que os meninos Deivid e Felipe fizeram falando sobre o Palco Fora do Eixo em Santa Maria e a sua atuação durante este ano de 2010. Mais textos e mais informações sobre tudo que rolou neste ano, e sobre o que ainda vai rolar, estão no blog do PFE Macondo, disponível aqui para quem quiser acessar.

Mudando um pouco o foco da nossa conversa, amigos e teatreiros... o Teatro Por Que Não? está em uma mobilização ferrenha para nos prepararmos bem para o 14º Santiago em Cena, onde vamos nos apresentar no próximo final de semana, e também para nossas apresentações em São Paulo, que prometem, e que acontecerão a partir do dia 18! Aguardem para maiores informações e cobertura completa (própria mas completa!) de tudo que vai rolar lá! Por hoje, é isto. Mas, para logo, teremos mais.

Boa noite a todos, com as costumeiras saudações teatrais!

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