sábado, janeiro 15, 2011

A queda do quarto muro


Ela já entrava falando. Vinha na personagem e dizia coisas engraçadas. A maioria das pessoas ria, eu também, mas bem contido. Porque a essa altura eu me escondia, morrendo de medo que ela me visse e, na frente de todos, eu tivesse que interagir.
- M. Figueiredo, espectador de “Maria Metade”


Por que nos provoca a presença de um ator vivenciando o seu personagem? Para muitos instiga, para outros encanta, e ainda para alguns, apavora. O que há de mágico, de desafiador, no pequeno e invisível espaço entre a máscara e o olhar atento daquele que vê? Uma busca por identificação, por reconhecimento, uma espécie de “jogo do espelho” que entrelaça a fantasia e a realidade? Sabemos, enquanto “teatreiros”, que há uma grande pitada de loucura em ser-se outro. Então, seria o espectador alguém sedento por essa fagulha de loucura? Por essa luz de alucinação lúcida que permite ao ator mergulhar em uma faceta de si, uma faceta, quem sabe, também daquele que o observa?


A relação entre ator e espectador tem de ser face a face. Retiram-se os traços da cena ilusionista. [...] São concebidas formas diversas da tradicional cena italiana de uma maneira que incite o espectador a sair do lugar comum.¹


Muitas encenações contemporâneas vêm bombardeando a tradicional “quarta parede” e reunindo seus cacos na experimentação criativa de novas possibilidades. Dentre suas atitudes ousadas, estão: privação da acomodação, alterando ou eliminando as confortáveis poltronas que costumam fixar o público; desconstrução da clássica lógica sequencial aristotélica (aquela que prevê início, meio e fim à saga do herói) atitude que nos conduz a exercitar a imaginação; e principalmente, furando a tela invisível que nos afasta da loucura desses seres “possuídos”, “encarnados”, fazendo com que estes passem a estatelarem-se diante de nós ao ponto de nos integrarem ativamente ao fluxo dramático.

Em algumas peças - sem a convenção do quarto muro - as barreiras de interação diminuem ainda mais profundamente. O espectador é submergido ao fluxo de um rio cujas margens (ele mesmo) têm consciência sobre o seu poder de intervenção, de modificação e transformação dos “fictícios” fatos. O personagem/ator navega à deriva em busca de um porto distante. Ele possui apenas um mapa (roteiro, canevas²), mas para tornar-se capaz de compreendê-lo, precisa provocar constantemente a interação dos presentes. Esse marujo abre, então, espaço para o jogo entre o que convencionalmente separa a cena do público, e desenvolve seu percurso sobre os registros das novas relações traçadas.

Teatro pós-moderno? Pós-dramático? Uma definição nos cabe aqui? Que venha o futuro, que venham os artistas com impulsos inovadores, que venha a transgressão, a experimentação! E, M. Figueiredo, esse é o seu momento, a sua vez dentro do “foco dos refletores”, deixe sua alma esvair-se nesse fluxo criativo... permita-se!

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Para saber mais:
- Estação Teatro, Teatro Pós-dramático: Um estudo. http://estacaoteatro.wordpress.com/textos-e-reflexoes/teatro-pos-dramatico-um-estudo/

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¹ Lima, Evelyn F. W. Etraído de http://www.polemica.uerj.br/pol21/cimagem/p21_evelyn.htm em 2 jan 2011.
² O Canevas é o roteiro de uma peça, ele guia as improvisações dos atores, em particular na Commedia Dell’Arte. Constitui-se por pontos de referência que interligam a trama, sugerem jogos de cena e/ou alinham efeitos especiais.

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Texto: Luiza de Rossi




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