sábado, junho 18, 2011

Pausa para Brecht

Boa noite! A semana que se passou foi de preparação para a primeira edição do (pausa dramática)! Com muito entusiamo, estamos tentando adentrar a efervescente Mahagonny de Brecht. Com muita atenção, estamos tentando entender sua ascensão e sua queda. E com ensaios, estamos planejanto uma bela leitura para segunda-feira! Lembrando que o evento acontece às 20h, no Boteco do Rosário e tem entrada franca! Mais sobre o (pausa dramática) aqui!


Agora, para os leitores e espectadores, um texto que introduz o encenador e escritor alemão Bertold Brecht, autor de Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, obra cuja leitura será realizada. Um bom final de semana a todos e até a segunda!

Bertold Brecht, uma breve introdução histórica 
por Deivid Machado Gomes

Brecht nasceu em 10 de fevereiro de 1898 em Augsburg e morreu em Berlim no dia 14 de agosto de 1956. Seu pai era um industrial católico e sua mãe uma protestante. Nasceu em um momento onde o imperialismo se apresentava como uma necessidade para expansão do capitalismo. A Alemanha estava em uma fase de progresso econômico, industrial e tecnológico, gerando também, um aumento do proletariado e o crescimento do movimento socialista alemão. Era um momento em que o mundo estava sendo dividido pela expansão do capitalismo, e aumentavam as discordâncias entre Inglaterra e Alemanha, ambas querendo absoluto poder. Bismark unificou a Alemanha em 1871, apoiado pelo militarismo, exaltando o culto ao exército, o nacionalismo, o respeito pela autoridade e hierarquia (valores aproveitados, posteriormente, pelo nazismo). 

No início do século XX, a Alemanha era capitalista, e ao mesmo tempo, absolutista, hierárquica, comandada por uma administração burocrática. Como não vivia em um estado democrático, e com uma situação política tensa, sem a participação do eleitorado, o teatro tornou-se a válvula de escape para as agitações, esperanças e descontentamentos dos alemães. 

Em 1914, quando Brecht tinha dezesseis anos, a Alemanha declarou guerra à Rússia. Nesse momento era ele, um patriota genuíno. Entrou para a faculdade de medicina e foi recrutado como enfermeiro. Ao entrar em contato com o horror do front, suas idealizações sobre a guerra esfacelaram-se. Levando-o a escrever o poema “A lenda Do Soldado Morto”, que o colocou no hall da fama, e na lista negra de Hitler no ano de 1923. Ele participara, também, das rebeliões revolucionárias em 1918 e 1919. 

Entre 1918 e 1923 a Alemanha passara por forte crise, estando presentes no seu cotidiano a fome, o desemprego e a confusão política. E é dentro desse cenário que Brecht inicia sua atividade teatral, sendo influenciado fortemente por esse quadro. 

A Teoria Brechtiana 

Inicialmente, Brecht se contrapôs a todos os grandes teóricos do teatro clássico tradicional, no qual a ação era o produto de conflitos de interesses e sentimentos entre as personagens. De acordo com esses, toda ação deveria, necessariamente, conduzir a um desenlace, por meio do qual seria estabelecida uma determinada ordem. Para o filósofo Hegel (1770-1831), o conflito principal, aquele entorno do qual girava a obra, devia encontrar no desenlace desta, seu apaziguamento definitivo. Já que, o público tinha o direito de exigir que de forma trágica ou cômica, a ação dramática culminasse na realização do racional e do verdadeiro em si. 

Para o teatro clássico, todo ele derivado das concepções da poética de Aristóteles (384-322 a.C.), a ação dramática deveria ser dirigida a instauração de uma ordem válida para todos e que apresentasse um valor simbólico. O palco era a voz e o reflexo da verdade da sala. As obras expressionistas tinham esse tipo de perspectiva teatral. Ao criticá-las, Brecht afirmou que, nelas, a ação teatral termina por perder seu valor simbólico em proveito de declarações ideológicas individuais que valorizam o particular contra o geral. Para ele, quando os expressionistas falavam do homem em si, procurando simbolizar toda humanidade num herói, estariam apenas tratando dos destinos de indivíduos excepcionais. 

Brecht sempre partia do principio de que o homem era alterável na medida em que conduzia e era conduzido pelo processo histórico. Encontrar um mecanismo teatral capaz de mostrar ao público seu papel dentro desse processo passou a ser então um de seus objetivos. Como fica claro na sua afirmação de que “o teatro que nos faz falta deve provocar não apenas os sentimentos, idéias e impulsos condicionados por um espaço histórico determinado nas relações humanas, espaço em que já se desenvolvem tais ou quais ações; o teatro deve provocar e aplicar idéias e sentimentos capazes também de ajudar a transformar o espaço.”[1]

E para transformação desse espaço, necessária seria, a transformação das ações que nesse espaço ocorriam, visto que o espaço influenciava nas ações, mas eram as ações que criavam esse espaço, endossando-o assim como estava, ou negando-o e o reconstruindo. 

Mas para incitar mudanças de atitudes era preciso mostrá-las necessárias e principalmente possíveis. Dotado desse ferrenho objetivo no seu horizonte teatral, Brecht partiu para a busca da aquisição de meios técnicos e artísticos que o fizessem lograr êxito nessa empreitada. 

O que Brecht propunha era que se olhasse o objeto a uma certa distância, de uma maneira nova e estranha. Esse era o processo dialético, a tese chocando-se com a antítese, gerando uma síntese. O objeto antes compreendido e dado como uma verdade certa, tornava-se incompressível quando apresentado sob uma nova ótica, levando num terceiro momento a um conhecimento crítico. 

[1] BRECHT, Bertold. Pequeno Organon Para Teatro. apud WINZER, Klauss Dieter. Berliner Ensemble 35 Anos: um trabalho teatral em defesa da paz. Tradução: Fernando Peixoto. São Paulo: Hucitec, 1984. Pág. 75. 

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