por Aline Ribeiro
Calma!
Antes que você imagine qualquer coisa relacionada à
sexualidade, fetiche e afins vamos às explicações técnicas!
O espaço físico do teatro que corresponde ao palco italiano
possui divisórias (dependendo da montagem) onde designam as entradas e saídas
dos atores e simbolicamente podem ser consideradas como a porta de casa, da
rua, da morte... enfim, tudo por onde se deve entrar e/ou sair. Pois então,
essas divisórias são normalmente formadas por tiras de tecido, que são chamadas
de pernas. Portanto, entre as pernas nada mais é do que aquele espacinho onde
se tem não só atores ansiosos, mas figurinos, objetos de cena, água, balde para
vomitar e o coitado do contrarregra (nova correção ortográfica, achei o uó
também).
E você, safadinho(a), pensando que era outra coisa! Ora, veja!
A necessidade de criar essa nova sessão do blog veio da
vontade de mostrar o acontece antes dos holofotes acenderem e durante a
apresentação, de uma visão que raramente o espectador vai estar (hoje em dia existem
tantos tipos de apresentações, um exemplo aqui no Por Que Não? foi a estreia do
espetáculo No Fio da Navalha em parceria com a Cia. Retalhos de Teatro, onde o
público ficava literalmente dentro da cena).
| Padre José e Elvis se "conhecendo" melhor Foto: Janaína Castaldello |
Trajetória de expectativas
O processo de montagem do O Santo Parto foi quase todo feito
na Casa de Cultura de Santa Maria. Para quem não conhece a cidade, explico: Na
mesma praça onde está o Theatro Treze de Maio tem um edifício voltado para a
prática de diversas manifestações artísticas. Seria tudo muito lindo se não
fosse por um fato – o edifício está totalmente sucateado. As salas estão em
péssimas condições de uso, com janelas quebradas, furos nos tetos, algumas não
tem nem energia elétrica e o isolamento acústico é zero.
Na mesma época, estava acontecendo a festa de São João para todos da cidade na praça, ou seja, em frente a Casa de Cultura, fazendo com que os atores não conseguissem ouvir nem o próprio pensamento. Quem via o ensaio, como eu, achava tudo muito agressivo e irritável, mas sem perceber que o barulho interminável era o fator predominante desse comportamento. Junto a isso estava uma sala muito pequena e um pouco suja seria muito educado para descrever a limpeza que se encontrava.
Nesse panorama era completamente natural a incerteza de saber se o espetáculo vai dar certo ou não.
Na mesma época, estava acontecendo a festa de São João para todos da cidade na praça, ou seja, em frente a Casa de Cultura, fazendo com que os atores não conseguissem ouvir nem o próprio pensamento. Quem via o ensaio, como eu, achava tudo muito agressivo e irritável, mas sem perceber que o barulho interminável era o fator predominante desse comportamento. Junto a isso estava uma sala muito pequena e um pouco suja seria muito educado para descrever a limpeza que se encontrava.
Nesse panorama era completamente natural a incerteza de saber se o espetáculo vai dar certo ou não.
Desfecho surpreendente
Saímos logo à tarde em direção a Rosário do Sul, colocamos
todo o cenário no transporte e tendo o extremo cuidado para que não haja nenhum
problema. A Santa Paulina cênica ficou pronta no último minuto e o Márcio Carvalho,
o mago dos objetos cênicos, finalmente pode dormir tranquilo!
| São Jorge Guerreiro e a Santa que tirou o sono de Márcio Carvalho. Foto: Janaína Castaldello |
Chegando lá, já nota-se um nervosismo por parte de todos os envolvidos: Como é que será uma estreia já em pleno festival? Poucas pessoas assistiram os ensaios, não sabia como os atores reagiriam a um público maior. E que público!
Antes da apresentação da Sessão Maldita, tinha uma outra apresentação, o que fazia o tempo de montagem e preparação ser mais curto e o coração mais aflito.
Em um frio bem gelado, corríamos contra o tempo: Helquer Paez, o diretor, lá no palco já fazendo a montagem do cenário e dos objetos, colocando-os organizadamente nas coxias (entre as pernas); Júlio Aranda dá mais uma lida nas falas no imponente Cardeal, era o debut dele em uma apresentação de um Festival; Felipe e André, do Por Que Não?, pareciam mais tranquilos e se preparavam para maquiagem; Luiza e Juliet lá no palco afinando a luz e eu fazendo a maquiagem.
| Escrava e Cardeal rememoriando momentos Foto: Janaína Castaldello |
Incrível a rapidez que passa o tempo, pois estava concluindo a maquiagem do Cardeal, quando chega alguém da produção avisando que faltavam 15 minutos! A correria começa e até o próprio Felipe arriscou a terminar a caracterização do Júlio, enquanto eu começava a maquiar Paula Freitas, a Escrava do texto de Lauro César Muniz.
Tudo feito, tudo pronto, MERDA! falada, beijos, passei o cargo de maquiadora para contrarregra. Sabe o que a pior coisa do contrarregra? Ele sabe todo desenrolar do espetáculo, captou todos os movimentos e situações e sabe quando algo está saindo errado e não pode sequer fazer alguma coisa.
O espetáculo estava correndo muito bem, Júlio nos
surpreendia a cada berro religioso do Cardeal e o jogo que se instaurou entre os
atores fez do espetáculo deleitável e muito divertido, enquanto eu lá, gelando
nas coxias. Quando de repente chega o momento do clímax, o parto propriamente
dito. Nos ensaios estava rápido demais, mas na estreia, começou a demorar, e o
pior disso tudo, eu via onde estava problema, o mexe e remexe das entranhas e o
bebê não saía. Em um puxão rápido da Paula sai bebê, sem uma perna e enrolado
no elástico que sustentava a barriga. Mas ao invés de causar um estranhamento,
parecia que o elástico estava ali para o espetáculo mesmo, parecendo um longo
cordão umbilical, e o pensamento rápido de Felipe e Paula disfarçou o membro
amputado.
![]() |
| O parto que foi literalmente um PARTO. Olha o elástico lá! Foto: Estevan Garcia |
Naquele momento a minha vontade era de entrar no meio da
cena e ajudar o “desembolamento” do bebê, mas ocorreu tudo certo e esse
imprevisto não atrapalhou de jeito nenhum na continuação do espetáculo. Fora
esse minuto de desespero, estive lá entregando a bacia de água da Escrava,
ajudando a Paula colocar o casaco fora de cena, trocando o figurino do Felipe,
espiando a cena final – linda ao som de Elvis, e ouvindo os aplausos
agradecidos por um espetáculo que ficou maravilhoso. Toda inquietação, medo, receio,
acabou naquele instante, dando lugar a satisfação e orgulho de um trabalho que
teve seus percalços, mas se encontrava ali, finalizado e comemorando ao som de
Like a Prayer, da Madonna enquanto o cenário era desmontado.
Até a próxima!


Parabéns...amei...a leitura desse relato me fez acompanhar ( rápido e estressante)o desenrolar de toda a peça...desde ensaios ao climax e desfecho.
ResponderExcluir